Encarando a música como sua fé professa somos confrontados com uma postura repleta de princípios cristãos.

Dave Grohl é um cara que dispensa apresentações, com todos os holofotes virados para o frontman de uma das bandas mais influentes da atualidade – o Foo Fighters – e com diversos projetos paralelos validam sua hiperatividade.

Pessoalmente gosto muito do trabalho do Dave, seja na sua banda principal, seja em participações de projetos com amigos que diga-se de passagem, de alto calibre como Paul McCartney, John Paul Jones, Josh Homme e mais um monte de gente de respeito. Mas quando ele resolveu aplicar sua hiperatividade no cinema, seus frutos me deixam bastante pensativo a cerca de sua relação com a música e nossa relação com o reino.

Dave Grohl e Paul McCartney no 54th Annual GRAMMY Awards

Dave Grohl e Paul McCartney no 54th Grammy Awards

 

O respeito, e de certa forma até temor, Dave Grohl se relaciona com a  a música de uma maneira muito parecida com a relação que temos com Deus e o reino, ele a coloca como uma entidade superior, e como ele se relaciona e externiza essa relação que devemos prestar a atenção.

Back&Forth

Em 2011, o diretor James Moll fez um documentário sobre o Foo Fighters, trazendo a tona a vida musical do Dave Grohl desde os tempos em que era baterista do Nirnava até a gravação do até então ultimo disco Wasting Light gravado em sua garagem.

Lá podemos ver sua relação com seus irmãos mais próximos, irmãos de caminhada que trabalham juntos em prol de um coletivo que tem a música como principal motivação. Assume a liderança, mas não deixa de contar com as qualidades e defeitos de cada integrantes, entende a importância de cada um para a realização de sua obra. Aborda todas as tensões com ex-integrantes, méritos alcançados e desafios superados.

A exigência em que tudo seja feito com excelência e carinho, também nós constrange em como muitas vezes somos omissos e desleixados em nossas atuações. E quando pensamos que que o cara é um workaholic, o vemos parando um gravação para nadar com sua filha, não se esquecendo de sua família mesmo tendo uma demanda de trabalho.

A música é o que os move e não se vêem glamourizado com isso a ponto do próprio Dave usar um tão sonhado trofeu do Grammy como um mero encosto de porta. Quando perguntam ao Taylor Hawkin (baterista) sobre o que ele acha de ser um rockstar ele é ríspido e diz: “F***-se, não sou um rockstar, sou um músico” nos deixa claro que eles estão ali para fazer música e não serem famosos. E ainda validam isso indo do extremo de gravar um show no estádio de Wembley em Londres com um público de mais de 100 mil fãs a fazerem uma turnê tocando na garagem de alguns fãs.

Sound City

Mas é em 2013 que Dave Grohl assume a direção do filme que realmente mostra como sua relação com a música é indiscutivelmente vertical, nós da um lição de relacionamento horizontal com seus irmãos, professos da mesma fé musical.

Sound City foi um estúdio situado em Los Angeles, California considerado um dos melhores em gravação analógica da história e com um elenco de artistas significantes que já passaram por lá. Fica claro que o Sound City foi sua primeira congregação, lá foi gravado o Nevermind, album do Nirvana que ganhou expressão mundial. Congregação essa que também ajudou muitos outros artistas a ganharem expressão e as pessoas comuns, meros funcionários, secretárias que aparecem lado a lado na tela. Todas pessoas fazem parte dessa história, do dono à secretária, de Niel Young à um baterista qualquer de uma banda qualquer que já passou por essa congração, todos sendo honrados e colocados em grau de igualdade.

E como estamos falando de um estúdio, no filme todos atribuem boa parte da qualidade das gravações a mesa de som, mesa essa feita sob medida e fabricada a mão pelo próprio Rupert Neve. Essa mesa de som é colocada como um altar, um púlpito dessa congragação. E em sinal de respeito e gratidão, Dave compra a mesa do estúdio já falido e leva para sua congragação, Studio 606. Mas quando achamos que seu gesto pode ter sido egoísta e de pura ostentação, somos surpreendidos com o ato de dividir.

Repartir aquilo que nos foi dado, e é ai que Dave nos constrange mais um vez, abre as portas de sua congregação e convidando aos que tiverem sua história com o Sound City a fazerem um album juntos chamado Real to Reel. Dos integrante ativistas do Rage Against The Machine ao Sir. Paul McCartney, Dave celebra, reparte e louva.

Sonic Highways

Agora em 2014 o Foo Fighters lança seu 9º disco, só que desta vez inovando todo o processo de gravação e nos levando a meditar novamente a refletir.

Agora a banda inteira, juntamente som sua equipe, seu ministério inteiro viaja pelo Estados Unidos gravando uma música em uma cidade diferente, cada cidade um estúdio, uma congregação. Enquanto as gravações acontecem dentro dos estúdio, Dave visita e entrevista os artista que fazem parte da história local da música. Ouvindo as histórias, absorvendo o que cada um tem a dizer sobre aquele lugar e como a música e o meio em que se encontram fazem parte da vida de cada um, relacionando e compartilhando. Ao final da semana intensa na congregação com as pessoas que construíram a história local chega a hora de gravar a voz com a letra escrita a partir dessas histórias e de como o ambiente pode influenciar no resultado, se contextualizando, respeitando sua história, relacionando com as pessoas, se permitindo cultuar a música novamente repartindo e relacionando. Aqui também podemos ver a figura de Paulo que tinha o viés itinerante cuidando de congregações longínquas.

Foo Fighter no Steve Albini Studio Audio em Chicago

Foo Fighter no Steve Albini Studio Audio em Chicago

 

Todos estes fatos e declarações me deixaram bem pensativo em como a relação do Dave Grohl com a música é genuína, sensível e responsável. Seu comprometimento com excelência sem deixar de lado os relacionamentos e o repartir me constrangeu.

Dave Grohl assume a responsabilidade que sua fé acarreta. Vê o TODO acima de qualquer particularidade. E nós? Assumimos o que nós foi competido?

Trabalhamos? Amamos? Repartimos? Honramos? Relacionamos?

São estas questões que queremos colocar em pauta aqui.